Jogo de Nuvens, 2016
Fotografia em colódio húmido sobre vidro montada em caixa de luz.
Dimensões Variáveis.

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(…) Partindo da contemplação de dois quadros do pintor holandês Jan van Goyen (1596-1656), existentes na Casa-Museu Fundação Medeiros e Almeida, “Bom tempo” e “Mau tempo”, quadros dominados por, respectivamente, nuvens brancas ou negras, Manuel Valente Alves e Carla Cabanas desenvolvem dois projectos que interrogam essa relação cósmica do sujeito com o mundo e a forma como céu e terra se constituem como mediadores fundamentais da compreensão do ser humano sobre si mesmo.
(…) o projecto desenvolvido por Carla Cabanas, “Jogo de nuvens” resulta da utilização de processos de sensibilização de placas de vidro com nuvens, cuja percepção se altera de negativo para positivo consoante o ponto de vista do visitante.
(…)Na obra de Carla Cabanas, por outro lado, a polimorfia das nuvens, bem como a variação da percepção das mesmas consoante o ponto de vista do observador, convoca questões relativas à instabilidade perceptiva, por um lado, ao mesmo tempo que estas imagens sublinham o carácter simultaneamente abstracto e potencialmente figurativo com que as nuvens surgem ao olhar humano. O acento nessa desestabilização manifesta-se também num princípio básico que foi explorado na pintura barroca: nas nuvens não há perspectiva linear, tudo é forma (abstracta) e volume.
Esta instabilidade perceptiva, proporcionada tecnicamente pela utilização de placas de colódio húmido iluminadas, absorve o sujeito que vê num jogo interpretativo mas também num processo de inquietação sobre o seu lugar enquanto observador. Nos anos vinte Alfred Stieglitz fotografou uma série de nuvens a que deu o título “Equivalents”, explorando na imagem fotográfica o potencial simbólico (Equivalentes, como sublinhou Rosalind Krauss, é em si mesmo um termo simbolista), mas também chamando a atenção, com o enquadramento, para a importância do corte na representação fotográfica. Nas imagens de Carla Cabanas as nuvens sugerem-nos o jogo entre abstracção manifesta e figuração subjectiva, sublinhando paradoxalmente o potencial de imprecisão que toda a fotografia esconde por detrás da sua aparente exactidão do rigor do seu corte. De forma mais específica, estas nuvens interpelam a segurança do observador, que, no próprio processo de contemplar as imagens é levado a reflectir sobre a forma como percebe e vê o mundo.
É esse carácter poético das nuvens, pela sua aparente forma abstracta bem como pela sua transitoriedade, e que se inscreve de forma silenciosa, velada, na ecologia humana, que é convocado pelos dois artistas aqui presentes.

Margarida Medeiros

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Clouds Game, 2016
Wet collodion photograph on glass mounted in light box.
Variable measures.

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(…) The exhibition now at display has its starting point in the contemplation of two Jan van Goyen’s (1596-1656) paintings, which belong to Fundação Medeiros e Almeida Collection, “Good Weather” and “Bad Weather”— which are dominated, respectively, by white clouds and dark clouds.  Artists Manuel Valente Alves and Carla Cabanas develop their projects interrogating the cosmological relationship of human subject with environment, as well as the way earth and skies constitute themselves as fundamental media for human self-understanding.
(…) Carla Cabanas’s project, entitled “Clouds Game”, consists in 6 collodium photographic plaques of clouds, whose perception changes depending on the viewer point of view, underlining the simultaneous character, abstract and potentially figurative that clouds offer to the human gaze.
(…) In the work of Carla Cabanas, on the other hand, the clouds polymorphism, as well as the fact that their apprehension varies upon the subject’s point of view, questions the instability of our perception; at the same time these images underline the abstract appearance of clouds concomitantly with its intense figurative potential as they appear to the human subject.
The emphasis put in this destabilization is something that was overworked in baroque painting: in the clouds there has no linear perspective to look for, everything is equally distributed in the same space. This perceptive destabilization, technically possible here by the use of wet collodium with backlights, absorbs the viewer in an interpretative game, but also in a disquieting process about his or her place as a subject. In the twenties of last century, Alfred Stieglitz has photographed a series of clouds entitled ‘Equivalents’, exploring their symbolic potential (equivalents, as Rosalind Krauss pointed out, is in itself a symbolist term), but also recalling attention to the framing act, to the importance of the photographic gesture of cropping reality. Carla Cabanas’ clouds also suggest the game between the apparent abstraction and the latent, or subjective, figuration underlining the haziness that every photograph hides behind its supposed exactitude and realism. In a very specific way this images question the subject self-assurance as in the very process of contemplation one must think over the way he understands and apprehends the world.
It is the poetic character of clouds, for its apparent abstract form as for its transitivity inscribed silently in human ecology that is convoked by the two artists.

Margarida Medeiros

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