A Matriz e o Intervalo, 2017
Impressão digital pigmentada sobre papel de algodão, dimensões variáveis.

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Durante a residência artística do Festival Walk & Talk, em 2016, Carla Cabanas ficou a conhecer parte do arquivo de fotografias do Instituto Cultural de Ponta Delgada. Deste arquivo faz parte um curioso conjunto de fotografias em chapa de vidro da primeira metade do séc.XX, fotografias essas que nos dão a ver outras fotografias, retratos e paisagens, cenas da vida quotidiana, interiores domésticos e aspectos do trabalho. São imagens que resultam do acto de fotografar a fotografia, uma prática comum à época e com múltiplas finalidades, de entre as quais fazer montagens, reproduções e ampliações, ou simplesmente preservar a matriz.

Deste ímpeto de preservação da imagem surge o projecto A Matriz e o Intervalo, um olhar dirigido à história da prática fotográfica e à especificidade do medium.
Vemos nas imagens aquilo que suspeitamos serem fotografias e cartas-postal, montadas com pioneses e pregos sobre estruturas improvisadas, preparadas para serem de novo fotografadas.
Vemos nas imagens o acto de fotografar, aqui liberto dos constrangimentos do referente mas obcecado por si próprio e pela possibilidade da sua repetição.
Cabanas recupera e dá continuidade ao acto de reproduzir a fotografia, partindo das digitalizações das chapas de vidro do arquivo. Ficam nas novas imagens os fundos improvisados, em tamanho real  - pedaços de madeira, peças de mobiliário, recortes de jornal ou tecido - cujo fotógrafo original iria, talvez, eliminar dos seus enquadramentos.


The Matrix and the Interval, 2017
Inkjet print on cotton paper, variable dimensions.

During the Walk & Talk Festival artistic residency, in 2016, Carla Cabanas had the opportunity to access part of the photography archive from the Instituto Cultural de Ponta Delgada. This archive contains a peculiar collection from the first half of the 20th century, consisting of photographs of photographs, depicting portraits and landscapes, scenes from the daily life, domestic interiors and aspects of labour. These images result from the act of photographing a photography, a common practice in those days that served several purposes, namely to do photo montages, duplications and enlargements, or simply to preserve the matrix.

This urge to preserve the image prompted the project The Matrix and the Interval, a look towards the history of the photographic practice and the medium specificities.
We see in these images what we suspect to be photographs and postcards, mounted with pushpins and nails on improvised structures, all set to be photographed again.

We see in these images the act of taking a picture, freed from the constraints of the referent but obsessed with itself and with the possibility of its repetition.
Cabanas reclaims and continues the act of reproducing the photography, using as a starting point the digitized glass plates from the archive. Remaining in the new images, the improvised backgrounds in real size - pieces of wood, furniture, newspaper sheets or cloth - that the original photographer would, perhaps, discard from his compositions.

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