Carla Cabanas explora temas relacionados com o arquivo, a memória, a ausência e o apagamento, usando como matéria fotografias dos seus álbuns de família, outras resgatadas de feiras de velharias ou ainda retiradas de contextos arquivistas e documentais.

Durante a residência artística do Festival Walk & Talk, em 2016, Carla Cabanas ficou a conhecer parte do arquivo de fotografias do Instituto Cultural de Ponta Delgada. Deste arquivo faz parte um curioso conjunto de fotografias em chapa de vidro da primeira metade do séc.XX, fotografias essas que nos dão a ver outras fotografias, retratos e paisagens, cenas da vida quotidiana, interiores domésticos e aspectos do trabalho. São imagens que resultam do acto de fotografar a fotografia, uma prática comum à época e com múltiplas finalidades, de entre as quais fazer montagens, reproduções e ampliações, ou simplesmente preservar a matriz.

Deste ímpeto de preservação da imagem surge o projecto A Matriz e o Intervalo, um olhar dirigido à história da prática fotográfica e à especificidade do medium.
Vemos nas imagens aquilo que suspeitamos serem fotografias e cartas-postal, montadas com pioneses e pregos sobre estruturas improvisadas, preparadas para serem de novo fotografadas.
Vemos nas imagens o acto de fotografar, aqui liberto dos constrangimentos do referente mas obcecado por si próprio e pela possibilidade da sua repetição.
Cabanas recupera e dá continuidade ao acto de reproduzir a fotografia, partindo das digitalizações das chapas de vidro do arquivo. Ficam nas novas imagens os fundos improvisados, em tamanho real  - pedaços de madeira, peças de mobiliário, recortes de jornal ou tecido - cujo fotógrafo original iria, talvez, eliminar dos seus enquadramentos.

Nas imagens que Carla Cabanas assim nos oferece sobrepõem-se várias matrizes: a fotografia primeira (a que se torna matriz), a chapa de vidro que resulta do acto de fotografar a fotografia (a segunda matriz), a digitalização da chapa de vidro (a terceira matriz). As imagens apresentadas nesta exposição resultam da impressão desta última matriz e contêm evidências das várias manobras fotográficas, realizadas em tempos diferentes. E os intervalos que separam a produção de cada matriz são comprimidos numa única superfície, a última imagem.

Como em trabalhos anteriores, as imagens de Carla Cabanas são compostas por camadas sobrepostas, sem distância entre si. Sobrepõem-se sem espaçamento as marcas da degradação das chapas de vidro, dos materiais fotográficos, as marcas humanas, datas ou referências obscuras. Como estratos geológicos, estas camadas dão a ver o tempo, os intervalos entre cada uma das vidas destes objectos fotográficos colapsados como se não houvesse distância entre eles. A imagem arrasta consigo os vestígios das várias operações fotográficas; cada matriz reúne em si as antecedentes e a primeira matriz contém o referente.

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Carla Cabanas explores themes related with the archive, memory, absence and effacement, using as source material photos from her own family albuns, others rescued from flea markets or found in archives.

During the Walk & Talk Festival artistic residency, in 2016, Carla Cabanas had the opportunity to access part of the photography archive from the Instituto Cultural de Ponta Delgada. This archive contains a peculiar collection from the first half of the 20th century, consisting of photographs of photographs, depicting portraits and landscapes, scenes from the daily life, domestic interiors and aspects of labour. These images result from the act of photographing a photography, a common practice in those days that served several purposes, namely to do photo montages, duplications and enlargements, or simply to preserve the matrix.

This urge to preserve the image prompted the project The Matrix and the Interval, a look towards the history of the photographic practice and the medium specificities.
We see in these images what we suspect to be photographs and postcards, mounted with pushpins and nails on improvised structures, all set to be photographed again.
We see in these images the act of taking a picture, freed from the constraints of the referent but obsessed with itself and with the possibility of its repetition.
Cabanas reclaims and continues the act of reproducing the photography, using as a starting point the digitized glass plates from the archive. Remaining in the new images, the improvised backgrounds in real size - pieces of wood, furniture, newspaper sheets or cloth - that the original photographer would, perhaps, discard from his compositions.

In the images created by Carla Cabanas we are presented with several overlapping matrices: the first photography (the one that becomes the matrix), the glass plate resulting from the act of photographing the photograph (the second matrix), the scanning of the glass plate (the third matrix). The images presented in this exhibition are the materialization of the third matrix and they contain evidences of the previous photographic manoeuvres, performed at separate moments. And the intervals that separate the production of each matrix are compressed in one unique surface, the final image, at least so far.

Like in previous works, Carla Cabanas creates multi layered, discontinuous images. In these images, the marks of degradation of the glass plates and the photographic materials, the human made marks, like dates, stamps or other obscure inscriptions, imprint fractures in the surface. Like compressed geological strata, these layers let us glimpse the passing of time, the intervals in between each of these photographic objects lives collapsed as if no distance separates them. The image drags the traces of each photographic operation; each matrix combines in itself the previous ones whereas the first matrix encapsulates the referent.

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