ENTREVISTA* a Carla Cabanas, por Lúcia Marques, a propósito da exposição Saudades e lagrimas são o unico lenitivo para a grande auzencia

Lúcia Marques (LM): Este projeto surgiu com a hipótese de uma residência em S. Tomé. Que ideia levaste contigo?

Carla Cabanas (CC): Eu queria continuar a tratar dos mesmos assuntos relacionados com o Tempo e com a Memória e a intervir nas representações de um espaço. Pensei fazer uma pesquisa de imagens antigas das ilhas e depois confrontar a ideia de um espaço com a realidade. Logo, achei interessante aproveitar a possibilidade de ir ao lugar, para deixar que isso influenciasse a minha relação com as imagens e consequentemente a minha intervenção nas mesmas...
Queria experimentar trabalhar fotografias a cores, pois nunca o tinha feito, então comecei por pesquisar negativos e slides. Pensei num tempo mais recente (anos 80) onde estes formatos eram comuns. Contudo, não encontrei nenhum material, nem em bibliotecas, nem nos privados que conhecia. Comecei a procurar imagens mais antigas e depois de muitas peripécias, encontrei estes postais. Achei-os muito interessantes, por terem duas funções simbólicas: a da imagem e a da escrita. A função de comunicar, ligar pessoas que estão em sítios distantes e a função de retratar historicamente um espaço, ainda que este retrato seja manipulado, tal como acontece com todos os postais...
Portanto, para São Tomé eu levei na bagagem todas estas ideias e 20 kg de fotografias.

LM: E o que mudou nos teus planos com o desenvolvimento da residência?
CC: Comecei por visitar alguns dos lugares que estão nos postais, nomeadamente roças e vilas. Andava sempre com pequenas reproduções das fotografias comigo, para as ver e as mostrar.
Embora tivesse sido eu a escolher as fotografias e a decidir imprimi-las, estava a sentir-me desconfortável em trabalhá-las porque são imagens do tempo colonial e isso tem uma carga muito própria. Encontrei-me num dilema: o que fazer com elas? Fiquei muito confusa, porque o meu trabalho não tem a ver com um tempo específico, nem com a circunstância das imagens e não me interessava trabalhar sobre isso.
Também acontecia que quando mostrava os postais aos são tomenses, eles ficavam tristes não por se recordarem da época colonial mas por se aperceberem que o património arquitectónico da ilha se está a perder porque não existe possibilidade de o conservar, nem de restaurar. Mas o meu desconforto continuou.
Por outro lado, estava muito impressionada com a beleza da ilha e com a força da natureza: se as pessoas não tiverem cuidado (em relativamente pouco tempo) o mato invade os sítios e eles desaparecem. É como se a ilha reclamasse a sua terra de volta e voltasse a ocupar tudo. Isto pode acontecer no mundo inteiro, mas aqui é mais evidente porque é mais rápido.
Para além disso, estava com uma imagem e uma frase muito presentes na minha cabeça: "saudades e lágrimas são o único lenitivo para a grande ausência". Isto está escrito à mão num dos postais que eu tinha escolhido, mas por cima da imagem. Uma pessoa escolheu um postal com uma cascata e escreveu por cima dela. Esta frase estava a perseguir-me porque tem muito a ver com o meu trabalho. E porque a certa altura também eu estava a sentir saudades...
Resumidamente, o que aconteceu foi que estive em pesquisa e reflexão durante grande parte da residência e centrei-me mais em fazer os vídeos, trabalhando pouco sobre as fotografias.

LM: Estavas "a sentir saudades"...?

CC: (risos) Sim... Mas usei esta frase como título porque esta consciência do vazio e da ausência tem estado muito presente no meu trabalho.

LM: Nomeadamente na série fotográfica contemplada no " Álbum Cabanas"... Já então trabalhaste imagens oriundas do teu próprio ambiente familiar, a par de outras retiradas de postais comprados na Feira da Ladra (“Álbum desconhecido”). Nesta nova série que agora mostras as imagens voltam a ter um valor afetivo, mas desta vez por causa da experiência do lugar (o facto de se reportarem ao passado de uma cidade na qual entretanto estiveste em residência). Começaste pelas que agora aparecem com motivos vegetais inscritos (e que têm uma relação mais evidente com o teu trabalho anterior) ou pelas que receberam excertos de postais?

CC: Comecei a trabalhar com o texto sobre as fotografias porque era esse tipo de intervenção que me interessava mais. Mas quando terminei a primeira percebi que senti falta da Natureza. Não foi uma coisa lógica, foi algo que eu senti, como se não estivesse a ser honesta para comigo mesma... Para mim não fazia sentido só usar uma coisa se eu sentia falta das duas. Eu pensava que o trabalho ficava mais coerente apenas com uma linguagem, mas não consegui descartar a outra. No dia seguinte comecei a fazer da outra maneira, isto em São Tomé.
Eu produzo de uma forma muito intuitiva e quanto mais o projecto avança, mais o consigo racionalizar.

LM: Foi com esse avanço que sentiste a necessidade de incluir os dois vídeos que também serão mostrados… Da imagem fixa, compósita, passamos para movimentos em planos fixos, onde a figura humana deixa de ser o grande protagonista (pelo menos aparentemente…). Qual o papel destes vídeos neste projeto?

CC: Enquanto os postais condensam a passagem do tempo (citando o processo e o resultado do desvanecimento da imagem), os vídeos insinuam uma deterioração em tempo real... totalmente impercetível mas presente. Apesar de invisível, o tempo faz aos espaços o que eu faço às fotografias. Por isso era importante para mim confrontar estas duas velocidades de desaparecimento.

[*] Após visita ao atelier da artista, prosseguimos a nossa conversa-entrevista por email, partilhando-se aqui a sua edição final.


INTERVIEW* with Carla Cabanas, by Lúcia Marques, on Cabanas's exhibition Saudades e lagrimas são o unico lenitivo para a grande auzencia

Lúcia Marques (LM): This project came about with the chance of doing a residency in S. Tomé. What ideas did you take there with you?

Carla Cabanas (CC): I wanted to keep dealing with the issues of Time and Memory and working on representations of a given space. I had thought of digging up old images of the islands and confront this idea of a place with its reality. Therefore, I was excited about the opportunity to go there myself and let the experience influence my relationship with the images and thus with my intervention over them.
I wanted to experiment with color photography, since I had never done it before, and I started looking for old negatives and slides. I'd thought about a more recent time frame (the 80s), where these formats were fairly common. However, I couldn't seem to find any material to work with, either in libraries and archives or the private sources I knew of. Then I started looking for older images and, after many setbacks, I found this set of postcards. I thought they were really interesting because they combined two symbolic expressions: image and writing. Postcards were created to serve communication, connect people in distant places, but they also manage to historically portray a particular time and place, even though this portrait is deeply manipulated, as are most postcards... And so I went to S. Tomé, carrying all these ideas and 20 kilos of photos.

LM: What changed in your plans throughout the residency?
CC: I began by visiting some of the places pictured in the postcards, especially the farms and towns. I carried small copies of the photos with me to try to identify the places and show them to people.
And even though I had picked and printed the photos myself, I was feeling uncomfortable with working on them, because they referred to a colonial past, with all that this entails. I was faced with a dilemma: what should I do with these images? I was a bit confused for a while, because my work has nothing to do with a particular time frame, or the circumstances surrounding the images, and I wasn't interested on working on that there.
It also happened that every time I showed the postcards to the islanders, they became sad, not for being reminded of those colonial times but because they somehow realized that their heritage is slowly disappearing and they have no means of preserving or restoring it. But my discomfort lingered.
On the other hand, I was deeply impressed with the island's beauty and the overwhelming forces of nature: if people are not careful(in a relatively short time) the woods will take over the built places and vanish forever. It's as if the island is reclaiming its natural space by slowly taking over everything. This can happen all over the world, but here this strikes us as more evident because it happens so much quicker.
Besides, an image and a sentence kept on hovering in my mind, very present: “longing and tears are the only relief for the great absence” ("saudades e lágrimas são o único lenitivo para a grande ausência"). This sentence was handwritten on a postcard I had picked, but above the image. Someone had picked a postcard with a waterfall and wrote this over the image. The sentence was following me because it relates very strongly to what I do in my work. And because at some point I was missing home myself...
In short, what happened was that throughout most of the residency I was researching and reflecting, and focused more on rendering the videos than on working on the photos.

LM: Were you “longing” ("sentir saudades")...?

CC: (laughter) Yes... But I used this sentence for the title because this awareness of what is missing, and absence, has been a strong and constant key in my later work.

LM: Namely in the "Álbum Cabanas" series... You have already worked on images from your own personal background, alongside others from postcards bought in the flea market (“Álbum desconhecido”). In this new series you are debuting images that have once again an emotional value, this time connected to your experience of a place (and how they relate to the past of a place where you were doing a residency). You started by those that now display natural motifs (which are more directly connected to your previous work) or by those which have received postcard fragments?

CC: I first started working with text over photography because it was that kind of intervention that interested me the most at the time. But just as I finished the first one I realized that I was missing Nature. It wasn't a logical thing or anything like that, it was something I felt, as if I wasn't being honest with myself... And it didn't make sense to use just one thing if I felt I needed both. I had thought the work would be more coherent if I only used one language, but I couldn't forsake the other one. The next day, still in S. Tomé, I started doing the other way around. I create very intuitively and I am only able to rationalize it when project develops further on.

LM: In that development you felt the need to include the two videos that are being screened... From the multi-element static image we move to the static shot, where the human figure is no longer the protagonist (or so it seems…). What is the role of the videos in the overall project?

CC: While the postcards sum up the passage of time (showing both the process and the outcome of the vanishing image), the video pieces hint at a real-time deterioration... unperceived but nevertheless present. Even if one cannot see it, time does to places what I do to pictures. I felt it was important to contrast these two vanishing velocities.

[*] After visiting the artist's studio, the conversation-interview continued via email, which resulted in this final edit.