LUISA SOARES DE OLIVEIRA

«LANDSCAPES»

O conceito de paisagem é trabalhado na obra da jovem fotógrafa Carla Cabanas através de vários processos. Há em primeiro lugar a própria pertinência do género na fotografia, e da sua relação com a história de arte: depois de séculos em que a paisagem foi interpretada e recriada em atelier, o fotógrafo interroga-se sobre a pureza do seu próprio olhar, e sobre a relação entre paisagem fotografada e a realidade. Daqui, surge uma segunda linha de reflexão que parte do pressupostoque o olhar do fotógrafo (ou a objectiva da maquina) é sempre parcial; e por isso é legitimo trabalhar a paisagem como se de pintura se tratasse.

A referencia a Gerard Richter é constante. Richter é talvez o artista contemporâneo que mais incisivamente tentou inverter a grande questão que atravessa a arte actual: se, desde o Impressionismo, a pintura vive centrada em si própria e deixa a tarefa de representar a realidade à fotografia, debrucemo-nos então sobre esta última e talvez cheguemos à conclusão de que ela é tão pessoal e subjectiva como a pintura. Nesta sequência, Carla Cabanas manipula a imagem fotografada por todos os meios que lhe surgem como possíveis e apresenta obras que devem tanto à pintura como à fotografia, ou melhor, à história da fotografia. A imagem original é queimada, pintada, voltada a fotografar até obter um resultado que nos deixa a nós, espectadores, na dúvida sobre a sua natureza original.

Há um livro de fotografias que se contrapõe todas as obras que se apresentam na parede, segundo um modelo que é, afinal, o modelo de apresentação da pintura em qualquer exposição. “Landscape”- assim se chama o livro - apresenta uma espécie de diário visual, intimo, deste trabalho da artista, e retoma com a tradição de apresentação da fotografia sobre um suporte portátil, manejável, à escala bem humana do habitante da cidade que se desloca de lugar para lugar durante o seu dia-a-dia. “Landscape”, ao oferecernos paisagens que são muito mais construidas do que a principio imaginamos, permite-nos projectar nelas o mundo que trazemos connosco, construido tanto pela sociedade como por nós próprios. É este o convite que nos faz, apartir de imagens desertas, despidas de habitantes, que falam por si próprias numa linguagem onde as palavras não têm lugar.

LUISA SOARES DE OLIVEIRA

«LANDSCAPES»

El concepto de paisaje es trabajado en la obra de la joven fotógrafa Carla Cabanas a través de varios procesos. Hay en primer lugar la pertinencia de género en la fotografía y de su relación con la historia del arte: después de siglos en que el paisaje fue interpretado y recreado en atelier, el fotógrafo se interroga sobre la pureza de su propia mirada y sobre la relación entre paisaje fotografiado y realidad. De aquí surge una segunda línea de reflexión que parte del presupuesto que presupone que la mirada del fotógrafo (o el objetivo de la cámara) es siempre parcial; y por eso es legítimo trabajar la fotografía como si de pintura se tratase.

La referencia a Gerhard Richter es constante. Richter es tal vez el artista contemporáneo que más incisivamente intentó invertir la gran cuestión que atraviesa el arte actual: si, desde el Impresionismo, la pintura vive centrada en si propia y deja la tarea de representar la realidad a la fotografía, volquémonos entonces sobre ésta última y tal vez lleguemos a la conclusión de que ella es tan personal y subjetiva como la pintura. En esta secuencia, Carla Cabanas manipula la imagen fotografiada por todos los medios que le surgen como posibles y presenta obras que deben tanto a la pintura como a la fotografía, o mejor, a la historia de la fotografía. La imagen original es pintada, quemada, fotografiada de nuevo hasta obtener un resultado que nos deja a nosotros, espectadores, con la duda sobre su naturaleza original.

Hay un libro de fotografías que se contrapone a todas las obras que se presentan en la pared, según un modelo que es, al final, el modelo de presentación de pintura en cualquier exposición. “Landscape” - así se llama el libro- presenta una especie de diario visual, íntimo, de este trabajo de la artista, y retoma con la tradición de presentación sobre un soporte portátil, manejable, la escala humana del habitante de la ciudad que se desplaza de lugar para lugar durante su día a día. “Landscape”, al ofrecernos paisajes mucho más construidos de lo que al principio imaginamos, nos permite proyectar en ellas el mundo que traemos con nosotros, construido tanto por la sociedad como por nosotros mismos. Es ésta la invitación que nos hace, a partir de imágenes desiertas, desnudas de habitantes, que hablan por si propias en un lenguaje donde las palabras no tienen lugar.

LUISA SOARES DE OLIVEIRA

«LANDSCAPES»

The concept of landscape is worked on by young photographer Carla Cabanas through the use of several processes- First, there is the pertinence of the genre in photography, and its relation with art history: after centuries of reinterpretation and atelier-recreated landscape, the photographer questions the purity of his or her regard, and on the relationship between the photographed landscape and reality. From here emerges a second axis of reflection which assumes that the eye of the photographer (or the camera’s lens) is always partial, and is therefore legitimate to work the landscape as if dealing with painting.

The reference to Gerard Richter is constant. Richter is perhaps the contemporary artist who most incisively has tried to invert the big question that crosses art today: if, ever since Impressionism, painting is centred in itself and leaves the task of representing reality up to photography, let us the focus on the latter and perhaps we will conclude that it is as personal and subjective as painting. In this line of thought, Carla Cabanas manipulates the photographed image using every means she finds possible and presents works which own as much to painting as they do to photography, or rather, to photography history. The original image is burnt, painted, re-photographed, until reaching a final outcome that is able to leave us, the viewers, doubting as to its original nature.

There is a book of photographs that contrasts with all the works presented on the wall, and follows a model which is, after all, the model for presenting painting in any exhibition. Landscape, the title of the book – presents a kind of visual journal, intimate, of this work developed by the artist, and recovers the tradition of presenting photography on a physical support, portable, manageable, to the human scale of the urbanite who moves around from place to place in his everyday life. “Landscape”, by offering us images that are much more constructions that we might imagined at first, allows us to project on them the world we carry about within us, built as much by society as by ourselves. This is the invitation that it offers, from deserted images, stripped of inhabitants, which speak for themselves in a language where words don’t seem to fit.