MARIA DO MAR FAZENDA
Lisboa, Fevereiro 2012

Num sábado luminoso e frio fui ter ao atelier onde Carla Cabanas finalizava as peças que agora são apresentadas na Sala do Veado e reunidas neste catálogo. Antes de descrever porque é que me atrasei cerca de quinze minutos na chegada, detenhamo-nos neste objecto que segura este texto e as imagens a que procuro responder.

O que ficou do que foi – antes de corrigir, escrevia de memória: o que ficou escrito do que foi... e pensei se não será a mesma coisa, apenas o que fica inscrito (escrito, descrito, reproduzido) é que permanece – O que ficou do que foi, até à data, reúne dois trabalhos: “Álbum Cabanas” e “Álbum Desconhecido”. As datas de produção dos trabalhos são respectivamente 2010/11 e 2011/12, ainda que possamos achar imprecisa esta datação. O processo criativo de Carla Cabanas apela, recorrentemente, a um fazer coincidir da memória (pessoal e afectiva) com a história da técnica fotográfica (a utilização de câmaras pinhole ou de fotografias antigas remetem para essa cronologia). Se pensarmos que nestes dois álbuns são colectadas fotografias a preto e branco, de formato quadrado, com molduras brancas e, que algumas destas imagens, segundo um olhar mais atento, tenham sido fixadas em vidro, concluímos que estas fotografias pertencem não a este século digital, mas sim ao princípio do passado ou até ao final do anterior: esse século que viu nascer a fotografia. Através da leitura da imagem (paisagem, arquitectura, mobiliário, vestuário, posturas, relações de olhares, etc.) conseguimos situar os vários tempos destas imagens, algures entre, o reconhecimento de factos da história colectiva e a afinidade que estabelecemos com os eventos de cada vida. Estes dois conjuntos de fotografias reunidos e localizados pela artista são divergentes na afinidade que à partida as imagens já estabeleciam entre si. As fotografias originais que Carla Cabanas reuniu em “Álbum Cabanas” retratam pessoas, locais e genealogias, ainda que distantes da sua memória, são retraçáveis pela artista e o leitor identifica uma familiaridade neste grupo de imagens. Já no “Álbum Desconhecido” são reunidos vários tempos, várias famílias, vários países. Trata-se de uma comunidade – uma memória, uma história – totalmente construída. Não quero com isto dizer que não seja autêntica ou mesmo que não transmita uma sensação de familiaridade. (Veremos que até nos acharemos nesta geografia do acaso.) A sensação que este conjunto de fotografias nos devolve, invoca o termo freudiano das Unheimliche – qualquer coisa que é familiar e estranho, ao mesmo tempo. Aliás, das Unheimliche poderia substituir a palavra fotografia (luz+escrita); a imagem fixada convoca sempre esta simultaneidade de sensações tão contrárias entre si. O intervalo de um tempo expresso num fragmento de um todo (da história), isolado do seu conjunto e sem a sua fixação a um texto, tem uma presença fantasmagórica destinada a ser uma memória esquecida.

Voltemos à manhã desse sábado de inverno. O atelier de Carla Cabanas situa-se num terceiro andar de um edifício localizado numa grande avenida de Lisboa. Nessa manhã a importante via estava bloqueada ao trânsito, porque ali iria passar uma manifestação. A única agitação que se fazia sentir vinha do tilintar de objectos a serem manuseados numa feira de antiguidades, que ocupava os entremeios da avenida. As faixas de alcatrão estavam (por enquanto) silenciosas, vazias, preenchidas pela minha memória de pessoas e de carros que por ali passavam. Sem o saber, este percurso, conduzido por tempos divergentes e por espaços ausentes, preparava-me para a introdução a essas memórias esquecidas que a Carla procurava restituir de vida, no seu atelier. Ali, era mapeado, silenciosamente, uma geografia do acaso. Um álbum do qual Nós, intrinsecamente, também fazemos parte. Enquanto contextualizava o “Álbum Desconhecido” no conjunto dos seus trabalhos, a Carla dizia-me que não tinha muitas memórias. Que não sabia muitas histórias sobre si mesma. Muitos dos seus trabalhos anteriores sobre os quais nos alongámos partiam de um mesmo repto: procurar registar o tempo que se demora a descrever tempos, memórias, esquecimentos. Por via da recordação, do contar de cor, eram descritos tempos e espaços à artista por várias pessoas mais ou menos íntimas, mais ou menos estranhas. No processo de inscrever os fragmentos de vida de outros, ou mesmo, por vezes, alterando narrativas para a sua voz, a artista encontra a sua memória na dos outros. A ligação especial com a memória, com a história, é uma característica muito humana. Viramo-nos para a memória e para a história para encontrar a nossa identidade. Texto e imagens, talvez em partes iguais, são aquilo com que a história é feita. E embora as imagens sejam tão fáceis de falsificar como a informação textual, as imagens – sobretudo as fotográficas – têm uma carga, uma aura, de autenticidade muito forte. As imagens são como que convenções de uma determinada evidência. E é neste nevoeiro de autenticidade, familiaridade e intimidade que o “Álbum Desconhecido” nos coloca. Mas, facilmente, conseguimos traçar analogias (o que nos conforta) entre fotografias: os elementos que se repetem (uma janela, uma árvore); as mesmas pessoas que ensaiam poses (à volta de uma mesa, dentro de um barco); os motivos para a fotografia (a viagem em família, o retrato para o namorado). A relação entre as imagens e o tratamento (no sentido de acolhimento) a que a artista as submeteu; as várias evidências ali documentadas em confronto com aquilo que é destacado, apagado ou camuflado criam uma narrativa que conecta a familiaridade e a estranheza destas fotografias para um único plano.

Nesse sábado, saí do atelier com a sensação de que as fotografias recolhidas, reunidas e depois intervencionadas por Carla Cabanas eram já texto, memória, história sua. E nossa. No caminho de regresso, lembrei-me dos livros de W.G. Sebald, da dualidade essencial entre texto e imagens na construção das suas histórias, da sensação primeira de que os seus livros são realistas e que parecem narrativas autobiográficas. Nos seus livros, assim como no método de inscrição utilizado por Carla Cabanas, a voz do narrador é colocada na primeira pessoa mas não fala sempre com a voz do autor. Apesar de Sebald negar que os eventos descritos nas suas novelas tenham de facto acontecido, a inserção de evidências (as imagens) no texto reconduz-nos a uma hesitação entre o que achamos que é verdade e o que é ficção. E procuramos restituir essas falhas de sentido, com aquilo que é nosso ou que encontramos de nosso no outro. Sabe-se que Sebald recorria frequentemente a lojas de fotocópias para fazer ampliações e reduções de variadíssimas fotografias e outros materiais visuais, com a presumível intenção de as reproduzir nos seus manuscritos. Nos seus primeiros romances, as imagens assumiam esse aspecto da fotocópia, apagado, desgastado da imagem que perde referências ou informações visuais que o texto complementa. São trabalhos como o de Sebald que nos fazem compreender porque é que a deusa grega Mnemosyne ofereceu a memória aos poetas. E não é coincidência que Aby Warburg, no princípio do século passado, tenha designado de Atlas Mnemosyne o seu projecto de colecção, de edição e de relação entre imagens de variadíssimas origens. A mesma obsessão de compreender, ao desenhar, o mundo é o que aproxima os projectos de Warburg e de Sebald. Os elementos de coincidência, de analogia e de afinidade também jogam um papel importante na construção destas geografias do acaso. Que nunca o são, de facto. Porque a memória desperta histórias a partir do elemento mais insignificante; esse elemento será sempre uma evidência de qualquer coisa.

A primeira fotografia. Frutas exóticas são servidas por uma mulher negra a militares brancos. A qualidade da fotografia reporta ao surgimento da técnica fotográfica. Não sabemos precisar quem são os colonos ou os colonizadores, nem tão pouco aferir de que colónia se trata. Mas sabemos reconhecer, na imagem, as posturas/termos pertencentes a um pensamento ocidental entretanto obsoleto. A linguagem, o mundo, alterou-se. A primeira das últimas fotografias. Alguém se fez retratar na margem sul do rio Tejo com a ponte 25 de Abril (à época, ponte Salazar) e com a vista de Lisboa como pano de fundo. Esta é a leitura feita a partir deste lugar. Algures, a ponte, poderá ser a Golden Gate Bridge e a horizonte difuso, a cidade de São Francisco. Ou, ainda, poderá ser uma ponte sobre um rio onde a figura ausente é preenchida pela memória de um eu. Apercebo-me agora, que anteriormente descrevi estas imagens com um termo paradoxal, as memórias nunca são esquecidas. Elas voltam sempre a quem as lê, num tempo presente.

MARIA DO MAR FAZENDA
Lisbon, February 2012

In a cold sunny Saturday I went to the studio where Carla Cabanas was finishing her pieces that are now being presented at Sala do Veado and collected in this catalogue. Before I describe to you the reason why I was fifteen minutes late that day, let us stop for a while to consider this object that holds this text and the images I am trying to respond.

What remains of what was – before correcting it, I was writing from memory: what was written of
what was… and I wonder if it could be the same thing, that just what remains inscribed (written
down, described, reproduced) is what endures – What remains of what was, so far, collects two
series: “Album Cabanas” and “Album Unknown”. The production dates for the works are, respectively, 2010/11 and 2011/2012, even if we can find this dating somewhat imprecise. The creative process engaged by Carla Cabanas is recurrently asking us to make memory (personal and emotional) and the technical history of photography (the use of pinhole cameras or old photos take us to that timeline) coincide. If we consider that in these two albums are gathered black and white square-type photos in white frames, and some of these images have been, to a more cautious view, fixated on glass, we come to the conclusion that these photographs belong not to this digital century, but to the beginning of the previous one, or even the final period of the century before that one: the century that witnessed the birth of photography. By a close reading of the image (landscape, architecture, furniture, clothing, posture, eye rapport, etc.) we manage to locate the images’ different times somewhere between our own recognition of collective history and the empathy we establish with each life’s events. These two sets of photos, gathered and pinned down by the artist, differ from one another in the affection that the images themselves had evoked beforehand. The original photos gathered by Carla Cabanas in “Album Cabanas” portray people, places and genealogies which, even if distant from her memory, are retraceable by the artist and in which the viewer acknowledges a familiar feel. In “Album Unknown” different eras, families, countries, are gathered. It is a completely fabricated community – a memory, a history. I don’t mean by this that it is not authentic or even that it can not deliver us a sense of familiarity. (One can actually find oneself in this geography of chance). The feeling that this set sends back evokes the Freudian notion of uncanny – something at once familiar and foreign. In fact, uncanny could replace the word photography (light+writing); the fixed image can always summon this simultaneous occurrence of such opposite feelings. A time lapse expressed in a fragment of a whole (history), isolated from its setting and not anchored to a text, holds a ghost-like presence destined to become a forgotten memory.

Let us go back to that winter Saturday morning. Carla Cabanas’ studio is located on a third floor of a building in one large avenue in Lisbon. That morning that important street was closed to traffic because it would be the passageway for a demonstration. The only restlessness that could be felt was the clanking of objects being handled in an antique market that occupy the avenue’s middle gardens. The tar carpets were (meanwhile) silent, empty, filled with my memories of people and drive-by cars. Unknowingly, this trail by different times and absent spaces, was preparing me for the introduction to those forgotten memories Carla Cabanas was bringing back to life, in her studio. A geography of chance was being mapped, right there, silently. An album we all are also, by nature, part of. While she was contextualizing “Album Unknown” within her previous work, Carla Cabanas was telling me she didn’t have that many memories. That she didn’t know that many stories about herself. Much of her previous work, on which we took some time, had started from the same drive: to record the time one takes to describe eras, memories, forgetting. Through recollection, reporting by heart, times and places were once described to the artist, by several close and not-so-close friends, strangers and not-so-strangers. In the process of inscribing the fragments of other people’s lives, or even, sometimes, changing narratives to include her own voice, the artist finds her memories in others’. That special connection to memory, to history, is a much human characteristic. We turn to memory and history to find identity. History is made of text and image, perchance in equal amounts. And even though images are as easy to forge as text, images – especially photography – have that weight, that strong aura of authenticity. Images are as if conventions of certain evidence. “Album Unknown” then places us in this mist, of authenticity, familiarity and intimacy. We can, however, trace analogies (it is comforting) between photographs: repeated elements (a window, a tree); the same people trying out their poses (around a table, on a boat); motives for taking pictures (a family trip, a photo to send the boyfriend). Relationships between images and the treatment the artist has devoted them; the many evidence there documented up against what is outlined, erased or veiled create a narrative channelling the familiarity and the oddness of these photos to a shared plane.

That Saturday, I left the studio with the feeling that the photos gathered, collected and later
interventioned by Carla Cabanas were already her own text, memory and history. And ours. On
the way back, I remembered W.G. Sebald’s novels, the essential duality between text and image in his story-building, the first feeling that his novels are realistic and they resemble autobiographical narratives. In his books, as in the inscription method used by Cabanas, the narrator’s voice is always first person but not always speaking with the author’s voice. Even though Sebald denies that the events described in his novels ever took place, his inclusion of evidence (images) in the text lead us back to an hesitation between what we believe is real and what we believe is fiction. And we try to restore those gaps with what is ours or with what we find of us in others. It is a known fact that Sebald would often take photocopies to enlarge or reduce an array of photos and other visual material, in the alleged intention of reproducing them in his manuscripts. In his first novels, images resembled photocopies, worn out, faded, images destitute from visual data or reference that text complements. It is the deeds of people like Sebald that help us understand why the greek goddess Mnemosyne endowed poets with the gift of memory. It is no coincidence that Aby Warburg, in early 20 th century, called his project Atlas Mnemosyne, after collecting, editing and establishing relationships between images of the most varied origins. The same obsessive need to understand the world, by drawing it, is what brings Warburg and Sebald’s projects close to one another. Coincidence, analogy and affinity also play an important role in the construction of these geographies of chance. In fact, they never really are. Because memory awakens memories from the most insignificant element; that element will always be evidence of something.

The first photograph. Exotic fruit is being served to white military men by a black woman. The photo quality takes us back to the dawn of photographic technique. We cannot tell for sure who the colonials or the colonizers are, nor identify the colony. But we can recognize, in the photo, attitudes/notions belonging to a meanwhile obsolete western thinking. Language, the world, has changed. The first of the last photos. Someone is being portrayed in the Tagus’s south bank, having both the April 25 Bridge (Salazar Bridge, at the time) and Lisbon’s vistas in the background. This is a reading made from this point of view. Somewhere else, this bridge may as well be the Golden Gate, and San Francisco in the dim horizon. Or, yet, it can be a bridge over a river where the absent person is filled in by the memory of a self. I realize, now, that before I have described these images using a paradoxical term, memories are never forgotten. They always go back to whoever reads them, in a present time.