VALTER VENTURA

«HISTÓRIAS»

“Marco ama Soraia”. Estas palavras foram escritas a canivete na casca de um plátano. Não sei quem é o Marco, mas a sua declaração perdurará para além do tempo que partilhará com a Soraia. É o medo de confrontar a nossa finitude que nos leva a registar a nossa passagem pela vida. Para que a memória das nossas histórias não desapareça connosco. Palavras e imagens. São tudo o que temos para provar que existimos alguma vez. Na Bíblia – escrita, diz Chris Marker, para salvar a humanidade do esquecimento – o mundo começa por palavras. Os japoneses aconselham precaução no seu uso: as palavras proferidas, tal como as flechas disparadas, não voltam para trás.
As nossas primeiras memórias são nebulosas, desfocadas. Mas é com essas recordações remotas que inventamos o prefácio da nossa história particular. É curioso: diz-se que quanto mais velhos somos (ou mais próximos do epílogo ficamos), melhor nos lembramos onde tudo começou, que mais focado fica o nosso passado. Entretanto, lembramos sem saber distinguir com equidade aquilo que vimos, daquilo que imaginámos, aquilo que vivemos, daquilo que nos contaram.
A série histórias combina esta oscilação entre a realidade e a ficção. Palavras e imagens. As palavras, apesar de pertencerem a excertos concretos de infâncias, contam histórias que o tempo tornou incertas. As imagens, não apresentam aqui a sua eficácia científica, óptica, mecânica que a câmara (outra “caixa de memórias”) foi desenhada para registar. Palavras e imagens. Somos convidados a aproximar-nos para ler as primeiras mas a afastar-nos para ver as segundas. Perpetuamos este ciclo do que é lembrado e do que é esquecido. Espero que o Marco ainda ame a Soraia.

VALTER VENTURA

«HISTORIAS»

“Marco ama Soraia”. Estas palabras fueron escritas con una navaja en la corteza de un roble. No sé quién es Marco, pero su declaración perdurará más allá del tiempo que compartirá con Soraia. Es el miedo de enfrentar nuestra finitud que nos lleva a registrar nuestro paso por la vida. Para que la memoria de nuestras historias no desaparezca con nosotros. Palabras y imágenes. Son todo lo que tenemos para probar que existimos alguna vez. En la Biblia - escrita, dice Chris Marker, para salvar a la humanidad del olvido - el mundo comienza por palabras. Los japoneses aconsejan precaución en su uso: las palabras proferidas, tal como las flechas disparadas, no vuelven atrás.
Nuestras primeras memorias son nebulosas, desenfocadas. Pero es con esos recuerdos remotos que inventamos el prefacio de nuestra historia particular. Es curioso, dicen que cuanto más viejos somos (o más cerca estamos del epílogo), mejor recordamos dónde todo comenzó, más enfocado queda nuestro pasado. Entretanto, recordamos sin saber distinguir sin equidad aquello que vimos de aquello que imaginamos, aquello que vivimos de aquello que nos contaron.
La serie historias combina esta oscilación entre realidad y ficción. Palabras e imágenes. Las palabras a pesar de pertenecer a extractos concretos de infancias, cuentan historias que el tiempo tornó inciertas. Las imágenes, no presentan aquí su eficacia científica, óptica, mecánica que la cámara (otra caja de memorias) fue diseñada para registrar. Palabras e imágenes. Somos invitados a aproximarnos a leer las primeras pero a alejarnos para ver las segundas. Perpetuamos este ciclo de lo que es recordado y lo que es olvidado. Espero que Marco aún ame a Soraia.

VALTER VENTURA

«(HI)STORIES»

“Marco loves Soraia”. These words were carved on the bark of a plane tree with a pocket knife. I don’t know who Marco is, but his statement will last longer than the time he will come to share will Soraia. It is but the dread we feel when facing our own finitude that leads us to record our passage through life. So that the memory of our histories doesn’t pass away with us. Words and images. They are all we have left to prove that we have existed at some point. In the Bible – written, Chris Marker states, in order to save mankind from oblivion – the world starts with words. The Japanese warn us to use them with caution: words, once spoken, are just like arrows shot, they don’t turn back.
Our first memories are shady, blurred. But it is with those same remote memories that we create the preface to our individual history. It’s curious, it is said that the older we get (or the closer we get to the epilogue), the better we can remember where it all started, the more clear our past becomes. Meanwhile, we just recall, without telling apart, with indeed some justice, what we have seen from what we have imagined, what we have experienced from what we were told.
The series (hi)stories is set in this balance between reality and fiction. Words and images. Words, despite belonging to concrete fragments of people’s childhoods, tell stories that time has made uncertain. Here, images are not shown in the scientific, optical and mechanical, accuracy that the camera (another “memory box”) was designed to capture. Words and images. We are invited to come close to read the former but to step back in order to observe the latter. We continue this ongoing cycle of what is remembered and what is forgotten. I hope Marco still loves Soraia.