SÉRGIO FAZENDA RODRIGUES

A Mecânica da Ausência II

Dando sequência a uma outra exposição, apresentada entre Outubro e Novembro de 2016, o trabalho que Carla Cabanas exibe aborda uma ideia de tempo, especulando sobre o que perdura e que desaparece.
Com um olhar que escrutina e uma memória que é difusa, Carla Cabanas opera sobre a imagem, atenta ao que lhe pertence e ao que sobre ela se fantasia. E investigando as noções de efabulação e reminiscência, a artista cria um dispositivo que exibe e convoca situações vagamente reconhecíveis. Situações documentadas por diapositivos de uma família, em que as imagens do seu quotidiano tendem a ecoar as do nosso, mas também, situações inusitadas que a artista concebe, cruzando personagens, momentos e locais distintos.

O seu campo de acção está, simultaneamente, nas imagens que escolhe, na forma como as manipula, no mecanismo que constrói para as dar a ver, e no espaço que assim se delineia. Deste modo, a galeria transforma-se em mais do que um sítio de acolhimento e assume-se como um lugar de participação, e num delicado equilíbrio entre o que se ausenta e o que permanece, o espectador cruza-se, de forma imersiva, com as lembranças, os sentidos e as personagens que aí habitam.
Entre o que se esbate e o que se fixa, entre o que se projecta e o que se retém, há a hipótese de um enredo que se tenta desenlaçar. Se num primeiro instante isso acontece quando deambulamos pelo labirinto da sala maior, num segundo momento isso acontece quando os objectos de parede, na sala mais pequena, nos chamam à sua proximidade.
A imagem ora é inteira, mas diversa, divagando como um eco pelos recantos de uma sala, ora é parcelar, mas una, sussurrada como um murmúrio pela extensão da outra. E contrariando o pragmatismo do registo fotográfico que lhes está na raiz, quer por excesso, quer por retenção, as figuras são quase sempre vagas e efémeras, e a sua percepção requer uma cumplicidade que assenta na curiosidade e na sedução.
No envolvimento que nos é requerido, Carla Cabanas expande a história que cada imagem detém, transformando um tempo suspenso, em algo vivo, indefinido e fantasiado. Algo que constrói um palimpsesto de referências e abre espaço a uma leitura complexa, estratificada e não linear. Marcando uma teia de sugestões e acontecimentos, que privilegia a emoção à racionalidade de uma qualquer ordem cronológica.

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